Tenente coronel da PM é chamado de “macaco” em palestra online sobre racismo

Para ouvidor da Polícia Militar, o crime ocorreu porque o fato de o coronel ser policial não o afasta de sua condição de pessoa negra na sociedade

 Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Twitter

Comandante do 11º Batalhão da Polícia Militar, na área dos Jardins e Consolação, Evanilson de Souza foi chamado de "macaco" em sua participação na conferência online do curso de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) na terça-feira(9). A vítima atua na frente de combate ao racismo e fará parte da Câmara temática da PM sobre o tema.

Segundo o ouvidor da polícia, o Dr. Elizeu Soares Lopes, o crime aconteceu porque o racismo no Brasil atinge toda a população negra e o fato de o coronel ser policial não o afasta de sua condição de pessoa negra na sociedade.

"Não é por acaso que ele sofreu racismo e é preciso ter uma resposta de igual dimensão para esse crime", avalia. O tenente agredido vai unir provas e abrir boletim de ocorrência para registrar o crime.

Lopes conta que a atuação de Evanilson como instrutor da PM no combate ao racismo e a participação na conferência online com os alunos da USP tinha essa finalidade. "Trata-se de uma pessoa de representatividade muito grande para os direitos humanos aqui no Brasil, as pessoas que cometeram esse crime tem que ser presas", afirma.

ofensa coronel
O insulto foi escrito por cima da apresentação do PM. Foto: Reprodução

Em nota enviada à agência Alma Preta, a Polícia Militar do Estado de São Paulo informou que repudia as ofensas raciais e mensagens de ódio praticadas contra o tenente-coronel. Além disso, a corporação reforçou que Evanilson de Souza foi convidado pela organização do curso para, justamente, expor o programa de combate ao racismo da PM e que o ataque, que também se qualifica como um crime cibernético, prejudicou o andamento da apresentação.

Também procurado pela reportagem, o Instituto de Relações Internacionais da USP afirmou repudiar a prática do crime classificado pela universidade como "inaceitável" e "que fere os princípios constitucionais da honra e dignidade da pessoa humana". Segundo o instituto, os coordenadores do curso já enviaram denúncia para a Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e a ocorrência foi registrada na manhã desta quarta-feira (10).

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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