Lumena ainda está em desconstrução no Candomblé, dizem mães de santo da participante do BBB21

Em uma conversa entre Lumena, Projota, Nego Di e Karol Conká, os participantes fizeram piadas que resultaram até em uma denúncia de intolerância religiosa

Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/TV Globo

Introdução:

Em uma conversa entre Lumena, Projota, Nego Di e Karol Conká, os participantes fizeram piadas que resultaram até em uma denúncia de intolerância religiosa

Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/TV Globo

As mães de santo Etemy Ogorensi Aline e Doné Neide do Terreiro Roça do Vargedo, frequentado por Lumena Aleluia, do BBB21, se pronunciou sobre a postura da participante do reality show durante uma conversa em que foi citado o orixá Xangô - cultuado no Candomblé.

A psicóloga riu diante de frases como "Eu xangôzei" e "Cheguei a xangôzar no quarto, véi", ditas pelo participante Nego Di. Em carta aberta, as mães de santo do terreiro de Lumena afirmam que os recém  iniciados (voduncis) no Candomblé podem cometer muitos erros de postura e de falas equivocadas até chegar a sua “maioridade” na jornada.  

Segundo Etemy, Lumena foi instruída seis meses antes de entrar no BBB21 sobre os ensinamentos que compartilharia e a postura que deveria ter, respeitando todas as entidades. As mães afirmam ainda que a participante do reality show possui uma história construída antes de sua entrada no Candomblé, ponto que contribuiu com o início de seu processo de maturidade. "Ela já veio com muitas marcas que estão sendo curadas, portanto, estamos ainda em processo de desconstrução", explicam.

Denúncia de intolerância religiosa

O deputado Átila Nunes (MDB-RJ) enviou nesta semana uma representação à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, em que denuncia Lumena, Projota, Karol Conká e Nego Di por crime de vilipêndio religioso, que configura desrespeito público de crença ou religião. A delegacia instaurou inquérito e decidiu apurar a denúncia.

"Ela não está no programa na condição de autoridade religiosa. Acreditamos que tudo será resolvido na devida paz de Olissá, pois não podemos esquecer que o Candomblé e a nossa comunidade têm um legado e muita força", conclui o terreiro.

Confira a nota na íntegra: 

“Eu, Doné Neide e Etemy Ogorensi Aline, mães de santo de Dofona de Odé (Lumena), em nome de toda a Comunidade da Roça do Vargedo, amparados pelos nossos voduns, sentimos a necessidade de compartilhar um pouco da trajetória de Lumena, suas dores, suas lutas e suas vitórias: 

Vodunci dofona de Odé, ou simplesmente Lumena, há 1 ano iniciou sua longa jornada nesta casa, como todos aqui sabem. Alguns voduncis (yawôs) podem cometer muitos erros de posturas e de falas equivocadas até chegar a sua maior idade, porque estão em constante aprendizado, incluindo os comportamentos que Dofona cometeu nessa infeliz conversa com outros participantes do reality. 

Sim, a postura dela naquele momento não foi a que esperávamos, mas, como mães de santo temos que ter paciência, assim como todos aqui tem com vodunci (yawô) na idade em que ela se encontra, que ainda tem muito que aprender e está em constante evolução. Lumena não é apenas de candomblé, ela é mulher preta, é mulher e já passou por muitos lugares, que contribuíram com seu processo de maturidade, como também, contribuiu para que ela tenha pensamentos que aqui em nossa roça estão sendo cuidados com muita cautela e urgência. Ela não é apenas uma mulher preta do candomblé, ela é DJ, psicóloga, produtora áudio visual, enfim, tem uma vida dinâmica e de batalhas diárias. 

Por onde andou, Lumena acumulou uma bagagem de vida, que trouxe para a casa, com relatos sobre ataques por ser preta, por ser LGBTQIA+ e, agora, por ser de religião de matriz africana, na qual teve muitas dificuldades em seu preceito por conta da intolerância religiosa. Logo, já veio com muitas marcas, marcas essas que após sua feitura ainda estão sendo curadas, portando, estamos ainda em processo de desconstrução.

Entendemos a complexidade da situação e a amplitude que tomou, mas, acima de tudo, entendemos também que a proporção está maior por ela estar em um reality, para todo o Brasil julgar. Por uma questão de amor, respeito ao ser humano, acolhimento e sobretudo religioso e ético, como mães de santo não podemos soltar a mão dos filhos, quando o mesmo precisa de orientação, acolhimento e amor. Não praticamos a política do cancelamento, e nem tão pouco do ódio, ela não está no programa na condição de AUTORIDADE RELIGIOSA nem cumprindo sua obrigação de VODUNCI (yawô), ela é uma participante de um programa assim como todos ali, que não estão exercendo suas profissões e, portanto, são todos participantes. 

Com fé, acreditamos que tudo será resolvido na devida paz de Olissá, pois não podemos esquecer que o candomblé e a nossa comunidade tem um legado e muita força, razão pela qual, carregamos a certeza que a situação será resolvida. 

O Acé segue sendo claro e pontual em sua postura diante de nosso povo de candomblé, sobretudo, mantendo hoje, amanhã e sempre a nossa idoneidade e a proteção da nossa história. Kolofé!”

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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