Discriminação sofrida por Lucas no BBB potencializa problemas de autoestima, diz psicólogo

O ator abandonou o reality show após ser vítima de bifobia e violência psicológica; discussão acerca da saúde mental vai muito além do programa e índice de suicídio entre negros é até 45% maior do que em não negros

Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/TV Globo

A violência psicológica é uma situação intrínseca ao comportamento das pessoas em sociedade. O assunto veio à tona, principalmente no ambiente virtual, com a repercussão dos fatos que culminaram na desistência do ator Lucas Penteado da edição 21 do Big Brother Brasil, ocorrida neste fim de semana.

"Uma pessoa que pratica uma violência psicológica muitas vezes tem a necessidade de uma plateia, ela subjulga outra pessoa, com o objetivo de ter uma aprovação, um consentimento de uma plateia. É o famoso bullying, que afeta quem é mais vulnerável", explica o médico psiquiatra Rodrigo Ramos, diretor do Núcleo Paulista de Especialidades Médicas.

Dentro do recorte racial, o psicólogo Nelson Gentil reitera que a situação vivenciada por Lucas, que deixou o programa depois de ser vítima de bifobia e violência psicológica, intesifica a revitaliza outros traumas. ""Essa violência atualiza as diversas outras sofridas anteriormente, antes de chegar no programa", pondera.

Por se tratar de um homem negro, Gentil explica que as consequências da discriminação potencializam problemas de autoestima. "Quem quer ser excluído? se você é excluído várias vezes seguidas por ser exatamente o que é, ocorre um afastamento de si, e assimilamos o que é aceito trazendo muitas consequências para nós. É um dano imensurável", detalha o profissional.

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Imagem: Reprodução/TV Globo 

Segundo dados do Ministério da Saúde, o ato de suicídio entre pessoas negras é até 45% mais provável de acontecer. Ainda próximos do janeiro branco, a importância do cuidado com a saúde mental e a recuperação de pequenas violências vividas no cotidiano pela população negra tornam-se ainda mais discutidas a partir do que tem acontecido no reality mais famoso do país. "Programas como o BBB proporcionam que a gente sente no sofá e julgue o outro, dizendo de forma simples", expõe Ramos.

A exemplo da situação protagonizada por Lucas Penteado no BBB 21, o psiquiatra explica que, em muitos casos, as pessoas entram com a intenção de interpretar um papel e só depois se dão conta de que "não é possível fazer enquanto são vigiadas 24 horas por dia, sete dias por semana". Para Ramos, o ator e slammer teve que lidar com a figura dominante dentro de uma relação, exercida por Karol Conká e "não teve condições de aguentar a pressão de ter que se impor o tempo todo".

Gentil acrescenta que o isolamento e a exposição são fatores que intensificam transtornos como a ansiedade. "Tudo que é novo nos gera ansiedade por tirar a sensação de estarmos no controle, nos dando uma falsa sensação de termos o perdido, e tudo ali [no programa] é maximizado. A partir dessa pressão a gente tem o aumento de um hormônio que se chama cortizol, que quando vai pro cérebro tende a alterar toda a quimica cerebral", reitera o psicólogo.

Intervir em uma situação de violência psicológica nem sempre é uma atitude simples para quem vê de fora. O racismo, em casos como este, muitas vezes pode servir como um aliado de quem oprime. Gentil aponta que "certas vezes as pessoas não falam porque não percebem a violência contra o corpo negro, está enraizado", reforça.

Por outro lado, uma das formas de combater as violências sofridas pela população negra é a união - algo que Penteado tentou propor no início da atual edição do BBB  e que, para muitas pessoas que acompanham o reality show, faltou. "O erro do Lucas, se é que podemos chamar de erro, foi propor uma pauta de união do pretos logo no primeiro dia e aquela máxima: 'nem todo preto é irmão, porque nós estamos adoecidos'. A nossa rede é muito importante. Quando dizem que o amor preto cura, eu entendo que é a partilha, é estarmos juntos", conclui o psicólogo.

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