Nenhum parlamentar negro concorre à presidência da Câmara e do Senado

"São construídas várias barreiras que impedem pessoas negras de ocuparem esses espaços", diz a cientista política Simone Silva

 Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Jonas Pereira/Agência Senado

A Câmara dos Deputados é responsável pela escolha e votação de pautas de interesse público, assim como a aplicação dos recursos públicos brasileiros. Por lá, 24% dos parlamentares se autodeclaram negros. No Senado Federal, a situação é semelhante, com 20% de senadores pretos ou pardos. Por outro lado, não há nenhum negro entre os cinco candidatos à eleição nas duas casas que compõe o Congresso Nacional. O pleito acontece nesta segunda-feira (1º).

Na Câmara, a presidência que hoje é ocupada por Rodrigo Maia (DEM-RJ) é disputada entre Alexandre Frota (PSDB-SP), Arthur Lira (PP-AL), André Janones (Avante-MG), Baleia Rossi (MDB-SP), Fábio Ramalho (MDB-MG), General Peternelli (PSL-SP), Luiza Erundina (PSOL-SP) e Marcel Van Hattem (Novo-RS). Já no Senado, a disputa para ocupar o cargo de Davi Alcolumbre (DEM-AP) ocorre entre Rodrigo Pacheco (DEM-MG), Simone Tebet (MDB-MS), Major Olimpio (PSL-SP), Jorge Kajuru (Cidadania-GO) e Lasier Martins (Podemos-RS).

A falta de representatividade na política brasileira é uma realidade que virou pauta na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal, liderada pelo senador Paulo Paim (PT). O senador argumentou à Agência Senado que "há predominância de brancos na política brasileira e isso reflete de forma negativa nas ações afirmativas em prol do protagonismo negro." 

"O problema central do Brasil é o racismo sistêmico. Que fundou instituições que levaram a esse processo de segregação, inclusive política", ressalta o professor Juarez Xavier, reiterando que episódios como o da eleição no Congresso Nacional foram desenhados previamente, desde a estruturação da política nacional.

Entre os principais candidatos na disputa das duas casas, o perfil também se mantém o mesmo. Além disso, o apoio do governo federal vai para Rodrigo Pacheco, no Senado, e para Arthur Lira, na Câmara. A movimentação do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) para eleger os dois nomes tem sido feita a partir da concessão de emendas, abertura de ministérios e da liberação de mais de R$ 3 bilhões em verbas para parlamentares.

Para o ativista Douglas Belchior, integrante da Coalizão Negra Por Direitos, a representação do povo brasileiro está longe de ser vista na política. “O racismo é a lógica de manutenção do poder para a branquitude. O resultado disso é que a representação política que temos no Brasil é mais parecida com representação de países nórdicos do que com o povo brasileiro”, argumenta o também educador da UneAfro Brasil.

Além da questão de representatividade como a imagem de um corpo negro, a importância da participação de quem representa mais de 54% da população do país se dá etambém em outros contextos, conforme lembra a cientista política Simone Silva. "Quando eu, pessoa negra, entro nesse espaço onde eu posso estar nessas negociações de poder, eu levanto a voz em prol de atender esse público, do qual eu compreendo politica e socialmente. E compreendendo ainda que esse grupo não tem acesso a política no Brasil", finaliza.

A eleição para a presidência do Senado está prevista para começar às 14h. A da Câmara dos Deputados deve ter início às 19h.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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