‘É um atentado à nossa voz’, diz covereadora negra após disparo em frente de casa

Na madrugada de 31 de janeiro um motociclista não identificado disparou um tiro para o alto na frente da casa da parlamentar na periferia de São Paulo; esse foi o segundo atentado contra vereadoras em menos de uma semana

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

 Uma pessoa não identificada e de moto disparou um tiro em frente a casa da covereadora negra Samara Sosthenes (PSOL), do mandato coletivo Quilombo Periférico, no jardim Herculano, zona sul de São Paulo, na madrugada de 31 de janeiro. A parlamentar e seus familiares que estavam na casa não foram feridos. É o segundo atentado a tiros contra parlamentares negras na capital paulista em menos de uma semana.

“É o dia que a gente carrega as nossas pautas, com o recorte que é a população que mais morre no país. É um atentado à nossa família, à nossa voz”, diz Samara.

A outra tentativa de assassinato foi na madrugada de terça-feira (26), em frente da casa da covereadora Carolina Iara (da bancada Feminista do PSOL), que esteve na delegacia neste domingo (31) para dar apoio à colega.

“É uma situação de ataque às lutas sociais, à visibilidade trans e ao mínimo de institucionalidade que ainda existe no país. Tem todos os sinais de violência, de transfobia, de crime de ódio e violência polícia, instigado por setores que podem estar incomodados pela nossa presença no parlamento, por sermos contestatórias, de esquerda, dos movimentos sociais de periferia e sermos mulheres negras e trans”, recorda Carolina.

Samara chegou na delegacia para fazer o registro do atentado às 18h com a advogada, porém, no 4ºDP não tinha uma equipe no momento e a covereadora foi aconselhada a voltar outro dia. Para que o registro fosse feito no mesmo dia do atentado, a parlamentar precisou esperar até as 22h.

“Se fosse um vereador branco, se fosse homem que tivesse recebido o mesmo nível de ataque, não teria sido tanto tempo de espera como foi. Mesmo assim conseguimos fazer o registro do crime do disparo da arma, da ameaça e da transfobia que provavelmente motivou esses ataques às vereadoras trans”, ressalta a advogada Sheila Carvalho.

Questionada pela agência Alma Preta, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo informou que o atentado contra Samara Sosthenes é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa. A covereadora foi ouvida e a 1ª Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes contra a Liberdade Pessoal instaurou inquérito para apurar o crime.

Segundo a pasta, a mesma unidade apura o dano e disparo de arma de fogo, registrado na quarta-feira (27), cometido contra Carolina Iara. A vítima realizou representação criminal contra o autor da ameaça e diligências estão em andamento para apurar todas as circunstâncias relacionadas aos fatos. A Polícia Civil apura se há relação entre os casos.

Texto atualizado às 15h29 para inclusão da resposta da Secretaria de Segurança Pública.

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